quarta-feira, setembro 28, 2011

LULA: o Filho (ou o Messias) do Brasil?



Por Wilson Porte Jr.

Todo povo busca sua redenção, sua fuga do caos, sua razão para a existência em meio às lutas e dificuldades da vida. Nesta busca por "salvação" e "salvadores", surgem os Messias, pessoas tidas como soluções para uma comunidade, seja ela pequena ou grande (nações). No Brasil não é diferente! Recentemente, assisti ao filme Lula: o Filho do Brasil. Uma série de questões foram levantadas em minha mente, as quais compartilho com vocês aqui.

Pretendo fazer uma análise crítica teorreferente do trinômio Criação-Queda-Redenção no filme "Lula, o filho do Brasil".

DESCRIÇÃO PANORÂMICA DA OBRA

Lula, o filho do Brasil, é um filme produzido em 2009 (direção de Fábio Barreto) tendo como base o livro homônimo de Denise Paraná, editado em 2003 pela Fundação Perseu Abramo. Em princípio, o livro de Paraná foi sua tese de doutorado escrita em 1995 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

O filme, diferentemente do livro, foi produzido e lançado (pré-estréia e sessões especiais) em um período de transição no governo brasileiro. Luis Inácio deixando, após dois mandatos, a presidência da república tendo todo o seu apoio sobre a candidata Dilma Rousseff. Muitos críticos tomaram isso como uma jogada política.
Segundo reportagem do Jornal Zero Hora de 13 de janeiro de 2010, houve certa expectativa por parte dos governistas de que o filme Lula, o filho do Brasil  dirigido por Fábio Barreto ajudasse a fortalecer a campanha de Dilma Rousseff à presidência. Com os números de platéia bem abaixo do esperado por causa da pré-estréia em novembro de 2009 e as várias sessões antes do lançamento comercial em janeiro de 2010, Pedro Butcher destaca que as críticas ao filme foram muito negativas, tendo em vista o forte caráter eleitoreiro no entorno da obra.

DESCRIÇÃO DOS MOMENTOS ESPECÍFICOS DA OBRA
O filme começa sob uma perspectiva de miséria, carência, e desesperança, característica em muitas áreas do Brasil. Luis Inácio da Silva nasce em Caetés, Pernambuco, no dia 27 de outubro de 1945.
O início do filme retrata todo o cenário de sofrimento, excesso de trabalho, falta de estrutura e infra-estrutura presente naquela região. Em meio a muitos gemidos e sofrimento, as crianças são apresentada em um cenário sub-humano.
Logo após isso, junto de sua mãe, Luis Inácio e seus irmãos vão à São Paulo depois de uma controvertida carta escrita por seu irmão mais velho. No caminho, o cenário supervaloriza o choro, a morte de animais e de tripulantes do caminhão que o sleva à São Paulo, a gravidez precoce, a pobreza, a falta de trabalho, de educação e de vida. Após treze dias de viagem sobre o caminhão, chegam a Santos-SP.
Desde pequeno, Luis Inácio é apresentado como um bom menino, educado, trabalhador, no ofício de engraxate. Seu pai, um homem rude, o priva de brincadeiras para que, desde cedo, trabalhe. Numa fatídica situação, quando seus irmãos mais velhos apanhavam de seu pai embriagado, quando o mesmo passa a bater em dona Lindu, mãe de Luis Inácio, ele, ainda bem pequeno, defende sua mãe, levando um tapa de seu pai. Quando questionado quanto à razão de não bater em sua mãe, Luis Inácio diz: “Por que homem não bate em mulher”. Diante dessa resposta, cercada numa áurea de grande sabedoria precoce, Luis Inácio fica como quem salvou sua mãe e irmãos de continuarem apanhando.
Após se mudar para São Paulo, com seus irmãos e sua mãe, Luis Inácio passa por momentos de alegria no futebol e no cinema, bem como por situações de grande sofrimento, como o inundação de sua casa devido a uma fortíssima chuva. Em meio a tudo isso, Luis Inácio é levado por sua mãe ao SENAI de São Paulo onde é inscrito no curso de torneiro mecânico. Tendo aprendido a profissão, Luis Inácio da Silva recebe seu certificado de torneiro em 1961. Em 1963, em São Bernardo do Campo, Luis Inácio passa pela primeira vez por uma greve em sua empresa. No filme, Luis Inácio não é o idealizador, muito menos o incentivador da greve. É mostrado apenas como um expectador daquele horror cheio de vandalismo e assassinatos hediondos. Luis Inácio foge da greve, sendo perseguido por seu irmão Ziza. Após discutir sobre o assassinato de dois colegas de trabalho que, aparentemente, não aderiram à greve, Luis Inácio as cenas do filme mudam para um momento de alegria em um bar. Após a noite no bar, Luis Inácio chega bêbado em casa.

Em 1º de abril de 1964, o filme retrata como Luis Inácio passa pelos dias de grande tensão na nação. É em meio a isso que o acidente no torno acontece, no qual Luis Inácio perde um dedo de sua mão. Em meio a grande crise de trabalho, Luis Inácio, agora sem dedo, passa a procurar emprego em várias instituições, porém, sem sucesso até que é empregado em uma metalúrgica. Depois de uma fase de sofrimento e dor, volta a alegria na paixão que Luis Inácio sente por Lurdes, irmã de um amigo de infância.
Em meio a tudo isso, no meio do filme, Luis Inácio é convidado a entrar no Sindicato dos Metalúrgicos, o qual aceita depois de relutar bastante. No Sindicato, Luis Inácio se encanta com as propostas e ideais do movimento. Neste tempo, Luis Inácio casa com Lourdes. Após um tempo de alegria e gravidez, Luis Inácio passa por um dos momentos mais devastadores de sua, perdendo, no mesmo dia, seu filho recém-nascido e sua esposa Lourdes com hepatite. Neste tempo, Luis Inácio é eleito diretor do Sindicato.
Depois de 1975, intensifica seus discursos e chega à presidência do sindicato, tornando-se muito popular ao apresentar a visão de um novo sindicato. Neste, Luis Inácio começa a desenvolver suas futuras reconhecidas habilidades políticas, ligando lados opostos dentro do próprio Sindicato. Um de seus chavões é: “ninguém aqui é de esquerda e nem de direita, mas de suas família”.
O fatídico evento com o estádio lotado gritando seu apelido, futuramente ligado ao seu próprio nome, “Lula”, uma multidão de dezenas de milhares de pessoas o toma nos braços e o carrega sobre o povo. Luis Inácio se torna uma figura unificadora e, suas palavras, um guia para os trabalhadores com ele envolvidos. Após forte opressão militar que interditou o estádio onde se reuniam, Luis Inácio encerra a greve, atraindo o descontentamento de seus companheiros. Neste momento, eles começam a se reunir em igrejas. E é dentro de uma igreja que Luis Inácio faz um de seus discursos mais emocionados onde recebe de volta o apoio que havia, virtualmente, perdido quando decidiu encerrar a greve. 
Nesse tempo, Luis Inácio é preso e levado ao DOPS em São Paulo. Após 31 dias, durante os quais sua mãe falece, Luis Inácio é solto. O filme termina com um breve relato das últimas três décadas na vida de Luis Inácio Lula da Silva. Relata que, de 1989 a 1998, Luis Inácio foi candidato à presidência da república por três vezes, não sendo eleito em nenhuma das três. Todavia, no dia primeiro de janeiro de 2003, Luis Inácio, após eleito, é empossado Presidente República Federativa do Brasil. O filme termina com Luis Inácio dedicando o diploma de presidente da república à sua mãe, Dna. Lindu.
COSMOVISÃO SUBJACENTE A “LULA, O FILHO DO BRASIL”
ASPECTOS SIGNIFICATIVOS DA COSMOVISÃO SUBJACENTE À OBRA
O primeiro ponto que considero significativo quanto à Cosmovisão da autora, é  seu compromisso em mostrar Luis Inácio da Silva como um Messias dentro de um contexto de caos quase absoluto, do qual, Luis Inácio emerge. 
O cenário de morte e caos, presente em cenários dos quais emergem os “messias” da humanidade, está presente fortemente no início do filme. Muito choro, animais mortos, uma criança morta no caminhão em que vinham para São Paulo, dentre outras cenas já mencionadas acima, dão o pano de fundo de onde Luis Inácio emergiria.
Como é comum na construção de um homem-messias, Luis Inácio é retratado desde cedo como alguém que defende os que sofrem. Isso ocorre quando enfrenta seu pai embriagado que batia nos irmãos e na mãe.
Em seu talento para articular entre lideranças de diversas posições ideológicas, Luis Inácio é retratado como um líder unificador, à semelhança àqueles que ocupam posições de liderança religiosa, que centralizam, unificam o povo, e pregam o que será vivido piamente pelos seguidores. É exatamente este quadro que o filme transmite. É aqui que o Partido dos Trabalhadores é criado, tendo Luis Inácio como um Redentor de toda a classe operária e trabalhadora.
Toda a áurea de religiosidade envolvida no lulo-petismo, termo cunhado pelo jornalista Reinaldo Azevedo, articulista da Revista VEJA, fica clara na aparição e prédica de Luis Inácio dentro de uma igreja acerca dos valores pelos quais ficaria conhecido na política nacional. Nesta prédica, emocionada e ovacionada pela multidão que o ouvia, Luis Inácio é tratado pela autora como um verdadeiro messias na esperança e expectativa e de seu povo.
Tanto o livro quanto o filme retratam bem o espírito de seu tempo. Numa época extremamente pessimista quanto aos rumos da política nacional, onde grande parcela da sociedade criam seus próprios ídolos fora a arena política como fuga da realidade, Luis Inácio surge como a única esperança para esta grande parcela da sociedade. Na ausência do Messias, eles criam um messias; na ausência de um Redentor, criam alguém que redima e salve da situação em que vivem. Luis Inácio é fruto da expectativa do coração do homem sem Deus, sem esperança, sem vida. Luis Inácio, voluntária ou involuntariamente, torna-se o ídolo desta geração que, com ele, alcançou um pouco mais de confortos existenciais. 
MOMENTOS DE VERDADE NA OBRA
Lula, o Filho do Brasil, é uma obra muito consistente com a aparente cosmovisão existencialista e ateísta da autora Denise Paraná. Desde o início, transparece a compreensão de que não há providência divina, mas fatos históricos que acontecem livremente, de acordo com o arbítrio dos homens e do contexto em que vivem. 
O filme retrata verdadeiramente o cenário de caos presente em muitas regiões do Brasil, a dura peregrinação de muitos nordestinos ao Sudeste em busca de novas oportunidade de trabalho, comida e habitação. Retrata, igualmente, os anseios do coração humano em busca de esperança e redenção.
Tudo isso é apenas uma constatação daquilo que as Escrituras compreendem no trinômio Criação-Queda-Redenção. Como seres que aguardam sua redenção, homens e mulheres relatam este anseio sem saber, ou, reconhecer, que só há um que pode cumprir o papel de Redentor. 
RESPOSTAS À OBRA
Lula, o Filho do Brasil, carece de informações que, uma vez percebidas, eliminariam a exposição do caráter messiânico exposto sobre Luis Inácio. As Escrituras Sagradas relatam a trajetória humana sobre estas três bases: Criação, Queda e Redenção. Em um estado de perfeição, como o que houve antes da Queda, há um governo perfeito, um trabalho prazeroso, justo e sem sofrimento, há saúde, vida e paz. Tudo isso foi perdido com a Queda. 
Desde então, os seres humanos têm criado seus ídolos que possam redimi-los desta escravidão à qual o pecado os trouxe, e livra-los do governo corrupto, do trabalho injusto, da insegurança e da enfermidade. Contudo, toda e qualquer materialização da Redenção na figura de um homem ou mulher igualmente afetado pela Queda, é em vão. É por isso que Luis Inácio, ao final de seu mandato, contava com uma parcela da população brasileira, pequena a bem da verdade, descontente com seu governo. Muitos frustrados com suas escolhas e omissões. 
O lulo-petismo foi uma completa frustração para aqueles que esperavam dele uma certa redenção de características opressivas do capitalismo ocidental do século XX. Esta frustração é evidenciada na dificuldade que o PT, o Partido dos Trabalhadores tem para eleger uma presidente para suceder Luis Inácio. 
O lulo-petismo não respondeu, nem poderá responder os anseios mais profundos do coração do homem. Poderá, como o fez, prover e alimentar certos ídolos igualmente presentes e compartilhados pela sociedade brasileira de menor renda. Contudo, será uma mera distração.
Por outro lado, as Escrituras Sagradas apresentam um aspecto redentivo que vai além das esferas das necessidades mais básicas dos seres humanos. O propósito de Deus dentro da Redenção da humanidade transcende os aspectos meramente humanos (relacionados ao coração) e atinge todo o cosmos. As Escrituras dizem que o verdadeiro Redentor, em sua Redenção alcançará redentivamente toda a criação (visível e invisível) que, de acordo com a Epístola de Paulo aos Romanos 8.22-23, aguarda em gemidos a completa Redenção.
Nenhum homem pode dá-la, pois é, igualmente, por ela afetado. Toda tentativa de colocar em uma pessoa a esperança de um “salvador da pátria” reflete o estado da alma daquele que construiu tal expectativa. É possível que a tese, o livro e, indiretamente, o filme, sejam resultado dos anseios do coração da autora de toda a história.
FONTES BIBLIOGRÁFICAS



PARANÁ, Denise. Lula, o filho do Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perceu Abramo, 2003.

PARANÁ, Denise. A História de Lula, o filho do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2009




4 comentários:

T3 disse...

Legal, cara! Bom trabalho!
Perspectiva interessante.

Wilson Porte Jr. disse...

Valeu, T3!

Um abraço.

Jr.

rozineide xavier disse...

se os governantes do mundo tivesse mesmo à fim de ajudar as pessoas investiria menos em esportes e mais em gente não que eu tenha algo contra o esporte em si mas o tanto que se gasta para organizar uma copa e quanto tantas pessoas passam fome é absurdamente constrangedor , nos evangélicos
élicos temos mesmo que orar e muito

rozineide xavier disse...

eu fiquei com uma duvida sobre poder comer cisas sacrificada a ìdolos pode me esclarecer por favor ?

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Premium Wordpress Themes