
O mundo ocidental vive atualmente em meio a um grande avanço científico. Não é necessário muito esforço para percebermos o quanto estamos ligados e somos influenciados pelo avanço nas áreas da física, da química, da biologia, da botânica, dentre outras.
As origens do moderno avanço das ciências naturais são um tanto complexas e controversas. Há, atualmente, teorias que se esforçam para apresentar um único fator que controla todo esse desenvolvimento científico. Todavia, tais teorias são tomadas pela grande maioria dos historiadores como ambiciosas e inconvincentes.
É por isso que nosso foco nesta monografia é analisar a estreita e intrínseca relação entre João Calvino e o desenvolvimento das ciências modernas.
CALVINO E O ENCORAJAMENTO AO ESTUDO CIENTÍFICO DA NATUREZA
UM ERRO HISTÓRICO DOS HISTORIADORES.
Como já dissemos, João Calvino foi um dos grandes fatores que ajudaram no desenvolvimento das ciências naturais. Além de remover grande parte dos obstáculos que impediam tal progresso, Calvino e seus seguidores foram grandes encorajadores do estudo científico sobre a natureza.
A imagem que hoje se tem de João Calvino infelizmente não corresponde aos fatos. A imagem de um homem que não dava margem a nada que não fosse intolerância e biblicismo tem sido passada de maneira pouco cuidadosa.
McGrath, no prefácio de seu livro A life of John Calvin, diz que “nos últimos cem anos, a atitude de Calvino acerca da teoria heliocêntrica do sistema solar de Copérnico[2] tem sido objeto de ridículo”[3]. Andrew Dickson White, citado acima, escreveu:
White, por sua vez, copiou tal equívoco de declarações fictícias dos escritos de Frederick William Farrar[5] (1831-1903), deão anglicano de Canterbury. A declaração de Farrar, repetida por White, tem sido amplamente repetida em livros, artigos e ensaios que tratam do tema “Religião e Ciência”, como Bertrand Russell em sua History of western philosophy[6]. Apesar dessa lenda ser tão bem aceita, ela não passa de ficção, uma vez que João Calvino nunca mencionou tais palavras, nem jamais citou Copérnico em seus escritos conhecidos.
É um fato triste da história que Calvino tenha sido adulterado e distorcido tão grosseiramente. É lamentável que ainda permaneça aceito que Calvino, e conseqüentemente o Calvinismo, tenham sido hostis contra o desenvolvimento das ciências naturais. De fato, a história é bem diferente, assim como avaliaremos a seguir.
A VERDADEIRA HISTÓRIA.
O fato é que Calvino encorajou amplamente o estudo científico da natureza em seus dias. Não só ele, mas também em seus discípulos se vê o mesmo nos anos que seguem à morte do reformador genebrino. Em suas Institutas, Calvino diz:
É possível ver a influência de Calvino sobre seus discípulos no que tange ao encorajamento à pesquisa científica. A Confissão de Fé Belga (que, segundo McGrath[9], exerceu particular influência nos Países Baixos) foi grandemente influenciada pela teologia de Calvino. E foi nessa região, onde ela exerceu maior influência, que, coincidência ou não, produziu-se um número notável de físicos e botânicos. Nesta confissão de fé, no artigo 2 (Como conhecemos a Deus), lê-se assim:
... visto que o mundo, perante nossos olhos, é como um livro formoso, em que todas as criaturas, grandes e pequenas, servem de letras que nos fazem contemplar "os atributos invisíveis de Deus", isto é, "o seu eterno poder e a sua divindade", como diz o apóstolo Paulo em Romanos 1.20: Todos estes atributos são suficientes para convencer os homens e torná-los indesculpáveis.[10]
Em outras palavras, Deus pode ser conhecido através de um estudo detalhado e minucioso de sua criação. E é impressionante, como já fora posto acima, a influência que esta confissão de fé teve sobre físicos e botânicos da região dos Países Baixos.
Em outras duas passagens das Institutas Calvino aprofunda um pouco mais a questão. Ele mostra como toda a criação não passa de um grande teatro que nos serve para revelar a glória de Deus:
Portanto, por mais que ao homem, com sério propósito, convenha volver os olhos a considerar as obras de Deus, uma vez que foi colocado neste esplendíssimo teatro para que fosse seu espectador, todavia, para que fruísse maior proveito, convém-lhe, sobretudo, inclinar os ouvidos à Palavra.[11]
Entrementes, não hesitemos em colher piedoso deleite das obras de Deus manifestas e patentes neste formosíssimo teatro. Pois, como o dissemos em outro lugar, embora não seja a evidência primordial à fé, contudo na ordem da natureza esta é a primeira: para onde quer que volvamos os olhos em derredor, devemos ter em mente que todas as coisas que nossos olhos divisam são obras de Deus, e ao mesmo tempo devemos refletir, em piedosa consideração, a que fim foram por Deus criadas.[12]
Nestes textos, Calvino claramente sugere que toda a natureza se posta ante os seres humanos como um formosíssimo teatro, ou, um teatro da glória de Deus. A humanidade é quem aprecia esse teatro, e o estuda também.
O professor Alister McGrath, da Universidade de Oxford, afirma que estas idéias foram tomadas com grande entusiasmo pela Royal Society, a organização mais importante devotada ao avanço da pesquisa e ensino científicos na Inglaterra. Segundo McGrath, muitos de seus primeiros membros foram admiradores de João Calvino, familiarizados com seus escritos e sua relevância para os campos de estudo daqueles[13].

Interessante como o próprio Sir Isaac Newton (1643-1727), cientista inglês, mais reconhecido como físico e matemático, embora tenha sido também astrônomo, alquimista, filósofo natural e teólogo, em sua correspondência com Richard Bentley (1662-1742) escreva sobre sua alegria em poder demonstrar evidência de design na regularidade do universo em sua obra de 1687, Principia Mathematica. Segundo McGrath, há nessas cartas claras alusões à referência de Calvino ao universo como sendo o “teatro da glória de Deus” onde todos nós podemos, como audiência, apreciá-lo e aprender dele[14].
O que se percebe lendo Calvino e aqueles que por ele foram influenciados é que, o estudo de toda a criação, seja por meio da medicina, ou da astronomia, ou da botânica, etc., conduz a humanidade a um aumento consciente da sabedoria daquele que criou todas as coisas visíveis e invisíveis.
Na visão do Dr. Abraham Kuyper (1837-1920)[15], homem profundamente familiarizado com os escritos de João Calvino, o calvinismo não pôde fazer outra coisa na história ‘senão encorajar o amor pela ciência’[16].
Portanto, Calvino não só encorajou e legitimou a busca pelo conhecimento da sabedoria do criador através das pesquisas científicas feitas pelos estudiosos das ciências naturais, como, também, eliminou muitos obstáculos dentro da própria religião que obstruíam tal avanço.
CALVINO E A REMOÇÃO DOS OBSTÁCULOS QUE IMPEDIAM O DESENVOLVIMENTO DAS CIÊNCIAS NATURAIS
A “GRAÇA COMUM” E A LUZ DA CIÊNCIA SOBRE OS PAGÃOS
Indubitavelmente, além de encorajar o desenvolvimento das ciências naturais, João Calvino buscou remover muitos obstáculos que impediam o avanço das pesquisas culturais e científicas em seus dias. Seu conceito acerca da graça comum ajudou a esclarecer muitas coisas além de remover outras que impediam o avanço do conhecimento.

Em seu comentário do livro de Gênesis, Calvino expõe claramente a graça comum. Ao mostrar Deus dando dons à amaldiçoada descendência de Caim (comentário de Gn 4), Calvino diz: ‘verdadeiramente é maravilhoso que esta raça que tinha caído profundamente de sua integridade superaria o resto da posteridade de Adão com raros dons’[20]. O texto que Calvino comenta é o seguinte:
A BÍBLIA NÃO É UM REPOSITÓRIO DE CIÊNCIAS NATURAIS
Quando afirmamos que João Calvino contribuiu grandemente para o desenvolvimento das ciências modernas, assim fazemos pelo fato dele ter lidado de maneira honesta com o literalismo bíblico. O grande problema de muitos que hoje lidam com o tema Religião e Ciência, ainda reside no fato destes quererem encontrar na Bíblia um verdadeiro repositório de livros-texto sobre astronomia, geografia ou biologia[23]. A ênfase de João Calvino era que a Bíblia trata fundamentalmente do conhecimento de Jesus Cristo.
Alister McGrath comenta as palavras de Calvino no prefácio da tradução do Novo Testamento de Pierre Olivétan (1543), onde, segundo McGrath, Calvino remove o conceito, até então normal, da Bíblia ser um repositório científico. Calvino disse em tal prefácio:
É deste modo que Calvino lança luz sobre uma melhor opção de interpretação das Escrituras. Não mais olhar para a Bíblia como um livro que se preocupa com a infalibilidade em assuntos geográficos, físicos, químicos, botânicos, astronômicos, dentre outros. E sim um livro que se preocupa em aumentar nosso conhecimento de quem é Jesus Cristo, o Deus-Filho. A Bíblia, na visão de João Calvino, quando cita algo relacionado hoje ao estudo das ciências naturais, o cita de forma acomodativa, dentro dos limites do conhecimento de então. É a isso que se chama de Teoria da Acomodação.
A TEORIA DA ACOMODAÇÃO
Calvino insistiu que nem tudo o que a Bíblia diz sobre Deus ou sobre o mundo deve ser tomado literalmente. De acordo com McGrath, Calvino desenvolveu uma sofisticada teoria relacionada sempre com o termo ‘acomodação’[25]. A palavra ‘acomodação’ aqui significa ‘ajustar ou adaptar a fim de encontrar as necessidades da situação e da habilidade humana para compreendê-lo’. Alister McGrath diz que ‘Deus pinta um quadro de si mesmo que nós somos capazes de entender’[26].Em outra obra, McGrath diz que, a teoria da acomodação de Calvino, resume-se em:
Deus, ao se revelar a nós, acomodou-se aos nossos níveis de entendimento e às nossas preferências naturais por meios ilustrativos de compreendê-lo. Deus se revela, não como Ele é em si mesmo, mas em formas adaptadas à nossa capacidade humana. Assim, a Bíblia fala de Deus tendo braços, boca, e assim por diante – mas essas são apenas metáforas vivas e memoráveis, apropriadas de maneira ideal às nossas habilidades intelectuais. Deus se revela de formas adequadas, convenientes às habilidades e situações daqueles para quem a revelação foi originalmente dada.[27]
Nessas palavras McGrath sintetiza o pensamento de Calvino sobre a maneira como Deus escolheu para se revelar aos homens: uma linguagem acomodada à ciência de então. Não uma linguagem cientificamente exata, mas, como já dito, adaptada.
No já referido texto, Wright usa a teoria da acomodação de Calvino para argumentar contra os literalistas bíblicos que levantavam objeções contra sua teoria. Seu argumento, segundo Hooykaas, foi dizer que ‘nem Moisés, nem os profetas, tiveram a intenção de divulgar sutilezas físicas e matemáticas, e, portanto, não entraram em minúcias supérfluas’[28]. Wright escreveu: ‘Moisés acomodou-se ao entendimento e à maneira de falar das pessoas comuns, como fazem as amas com as criancinhas’[29].

O Espírito Santo não possuía nenhuma intenção de ensinar astronomia... O Espírito Santo escolhe se adaptar e se comunicar conosco como que balbuciando, ao invés de bloquear o caminho do conhecimento às pessoas rudes e incultas[30].
Tanto João Calvino como seus discípulos defenderam a teoria da acomodação, que usando de linguagem simples para falar a um povo simples, permitiu-se a alguns erros vulgares[31]. Tais erros foram permitidos com o fim do Espírito transmitir sua mensagem espiritual para o povo. É a isso que Calvino chama de balbuciar do Espírito.
Não fosse a honestidade de Calvino, sem falar de toda a sua dedicação em buscar no texto bíblico o seu real significado, talvez, ainda hoje estaríamos todos em muitas trevas de ignorância.
Portanto, para o reformador genebrino que, segundo Thea B. Van Halsema, fora um homem humilde que viveu sob o lema Soli Deo Gloria[38], nada se compararia ao estudo e ciência de quem foi e é Jesus Cristo. Todavia, seus olhos não estavam fechados para o que acontecia em seu tempo. E foi sua honestidade e acuidade em lidar com as Escrituras Sagradas que permitiram-lhe ser um dos muitos fatores que contribuíram para o desenvolvimento das ciências modernas, eliminando um obstáculo significante ao avanço das ciências naturais: o literalismo bíblico.
Podemos concluir afirmando que, na relação entre João Calvino e o desenvolvimento das ciências modernas, há elos muito próximos e intrínsecos. Costa afirma que ‘a visão teológica de Calvino permeada pela soberania de Deus, fez com que ele procurasse relacionar a aplicação desta soberania às diversas atividades culturais do ser humano’[39]. Ou seja, Calvino entendia que as ciências e as humanidades deveriam ser usadas para a glória de Deus.
Mesmo a despeito de tantos erros de historiadores, ainda hoje pode-se constatar em fontes primárias o quanto João Calvino encorajou o desenvolvimento das ciências naturais em seus dias. A influência de Calvino é impressionante. Como avaliações após avaliações indicam, tanto as ciências físicas quanto as biológicas foram dominadas por Calvinistas durante os séculos dezesseis e dezessete[40]. Isso se deve aos obstáculos removidos por João Calvino em suas Institutas da Religião Cristã, em seus comentários dos livros da Bíblia, em seus sermões, em suas correspondências, e em prefácios escritos por ele.
De fato, Calvino encorajou o avanço das pesquisas científicas, e permaneceu tal como um espectador “ciumento”, atento às descobertas de cientistas da astronomia e da medicina, como alguém que desejava conhecer a sabedoria do Criador por meio dos dons dados por ele, ainda que para homens ímpios (graça comum).
Mas não só encorajou, removeu obstáculo que impediam tal avanço. De modo brilhante e inédito quebrou paradigmas, lançou luz sobre as Escrituras, e nisso também influenciou uma avalanche de pesquisadores em alguns países na Europa.
Alister McGrath faz uma boa reflexão sobre como seria hoje se Calvino ainda tivesse tanta influência sobre o debate religião e ciências. O fato é que, desde o século dezenove, esses dois tópicos têm travado uma batalha mortal. Dentro de nossa cultura ocidental, alguns desonestos e desinformados escritores têm atribuído a Calvino e seus seguidores a culpa por tal dilema, quando, na verdade, para Calvino não existia dilema algum.
Esta especulação de McGrath sobre como seria o debate evolucionista se hoje Calvino ainda tivesse grande influência, não passa de um mero raciocínio abstrato.
De fato, o que hoje sabemos e podemos afirmar é que as idéias e influência de João Calvino exerceram um grande impulso religioso que resultou na rápida expansão das ciências naturais nos séculos dezesseis e seguintes.
[1] HOOYKAAS, R. A religião e o desenvolvimento da ciência moderna. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1972. p.157.
[2] Nicolau Copérnico, astrônomo polonês, 1473-1543.
[3] MCGRATH, Alister. A life of John Calvin. Oxford: Blackwell Publishers, 1990. p.xiv. Minha tradução.
[4] WHITE, A.D. A history of the warfare of science with theology in christendom. In: HOOYKAAS, op. cit. p. 157
[5] FARRAR, F.W. History of interpretation. In: HOOYKAAS, op. cit. p. 157
[6] MCGRATH, op. Cit. p.xvi.
[7] CALVINO, João. As institutas ou tratado da religião cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, I.5.2.
[8] MCGRATH, op. Cit. p. 255.
[9] MCGRATH, Alister E. Reformation thought: an introduction. Oxford: Blackwell Publishers, 1999. p.274.
[10] Confessio Belgica. Confissão de Fé Belga. Artigo 2. Documento teológico produzido pela Igreja Reformada da Bélgica em 1561.
[11] CALVINO, As Institutas, I.6.2.
[12] Ibid., I.14.20.
[13] MCGRATH. A life of John Calvin. p.255.
[14] MCGRATH, op. Cit. p. 255.
[15] Abraham Kuyper fora um jornalista, teólogo e filósofo holandês. Trabalhou intensamente nas áreas acadêmica e política de seu país, chegou a servir como Primeiro Ministro da Holanda de 1901 a 1905. Kuyper fora o fundador da famosa Universidade Livre de Amsterdã.
[16] KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 119.
[17] CALVINO, As Institutas, II.2.15.
[18] HOOYKAAS, op. Cit. p. 152.
[19] COSTA, Hermisten Maia Pereira da. A reforma calvinista e a educação. Fides Reformata. v.13, n. 2, 2008. p. 34.
[20]CALVIN, John. Calvin's Commentaries. Electronic ed. Galaxie Software: Garland, TX.
[21] BÍBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2007. p.6.
[22] HOOYKAAS, op. Cit. p. 153.
[23] MCGRATH, op. Cit. p. 256.
[24] MCGRATH, loc. cit.
[25] MCGRATH, Reformation Thought. p. 275.
[26] MCGRATH, loc. cit..
[27] MCGRATH, A life of John Calvin. p. 256.
[28] HOOYKAAS, op. Cit. p. 160.
[29] GILBERT, William. De Magnete. In: HOOYKAAS, R. loc. cit.
[30] CALVIN, John. Calvin's Commentaries. Electronic ed. Galaxie Software: Garland, TX.
[31] HOOYKAAS, op. Cit. p. 154, 164.
[32] Ibid., p. 160.
[33] Ibid., p. 160-161
[34] KEPLER, Johannes. Astronomia Nova. In: HOOYKAAS, op. Cit. p. 161.
[35] COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Pensadores cristãos: Calvino de A a Z. São Paulo: Editora Vida, 2006.
[36] Bíblia Sagrada. Op.cit. p. 1153.
[37] CALVIN, John. Calvin's Commentaries. Electronic ed. Galaxie Software: Garland, TX.
[38] HALSEMA, Thea B. Van. João Calvino era assim. São Paulo: Editora Vida Evangélica, 1968. p. 206.
[39] COSTA, Hermisten Maia Pereira da. A reforma calvinista e a educação. Fides Reformata. v.13, n. 2, 2008. p. 35.
[40] MCGRATH, op. cit. p. 254.


4:35 PM
Wilson Porte Jr.




